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Crónica.

por alho_politicamente_incorreto, em 18.11.12

São mais as vozes

que as nozes?...

Publicado aqui

Por JOSÉ MANUEL ALHO

 

Anabela engrossou a já bem abastecida lista de médicos dentistas sem emprego. Apesar da disponibilidade financeira dos pais, que cedo fizeram sentir o orgulho que seria ver a filha médica, a opção não recaiu na abertura de um consultório próprio. Seria o derradeiro passo para um abismo ainda maior. Sem dinheiro, as pessoas já começaram a cortar também no essencial. Na sua saúde. Por outro lado, emigrar nem chegou a ser uma possibilidade. Esta jovem, ainda que perceba a força das circunstâncias, é a primeira a reconhecer não ter espírito (de) emigrante. Por ora, esse limite ainda não chegou.

 

Na sequência de uma navegação fortuita pela internet, deparou-se com um concurso promovido pelo Ministério da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território destinado a jovens produtores de nozes. Um caderno de encargos que não achou particularmente penoso ou inatingível logrou acossar o arrojo que os seus vinte e seis anos alimentam com destemida naturalidade.

 

Pensando otimizar parte dos terrenos de cultivo há muito pertença do pai por transmissão familiar, foi óbvio o raciocínio em forma de desafio: poderei ser uma empresária da agricultura?

 

A ideia ficou a marinar por uns tempos. É natural de Ferreira do Alentejo e ali a vida tem outra cadência. Aquela zona de vastas planícies verdejantes, douradas ou tingidas de castanho, conforme a época, borrifadas por barras de azul e amarelo sobre cal, é dona de uma beleza única que tudo relativiza. Ao longe enxergam-se pequenos planaltos, agraciados por vetustos moinhos, onde o azul do céu, talhado por um sobreiro, se junta em desgarrada ao verde das searas e dos campos de regadio. E são esses os cenários que acolhem a ponderação.

 

Recolheu literatura diversa sobre tão concreta atividade. Numa brochura entretanto remetida por um destes institutos públicos percebeu:

 

- (…) o mercado das nozes em casca onde Portugal importa cerca de 95% do que consome é bastante original. O seu consumo restringe-se essencialmente ao último trimestre do ano, descendo drasticamente até à Páscoa e a partir daí é quase nulo. As nozes importadas têm origem no Chile, França e Estado Unidos da América. A produção mundial é de aproximadamente 1 200 000 t e a China é o maior produtor. Admitindo que as nozes que aparecem no mercado são frescas - o que nem sempre acontece… - e considerando que o prazo de consumo de nozes naturais não deve ir além dos 11 meses e nozes lexiviadas (branqueadas) menos 2 ou 3 meses, a produção nacional pode ter algum interesse, principalmente para as nozes produzidas no Baixo Alentejo em que há variedades cuja apanha começa entre 10 e 15 do mês de Setembro e passados 4 dias estão disponíveis.”

"A ideia ficou a marinar por uns tempos. É natural de Ferreira do Alentejo e ali a vida tem outra cadência. Aquela zona de vastas planícies verdejantes, douradas ou tingidas de castanho, conforme a época, borrifadas por barras de azul e amarelo sobre cal, é dona de uma beleza única que tudo relativiza. Ao longe enxergam-se pequenos planaltos, agraciados por vetustos moinhos, onde o azul do céu, talhado por um sobreiro, se junta em desgarrada ao verde das searas e dos campos de regadio. E são esses os cenários que acolhem a ponderação.

Foi também lendo que descobriu que as características dos terrenos disponíveis estavam próximas do ideal: solos fundos, ricos e bem drenados, que muito raramente se encharcam.

 

Decidida a formalizar a sua propositura ao concurso nacional, resolveu deslocar-se à Feira de São Miguel em Penela - mais conhecida por Feira das Nozes e criada em 1433 por ordem de D. Duarte em resposta a um pedido do seu irmão, D. Pedro. Por entre a música, o teatro, a animação de rua e as exposições, Anabela aproveitou cada momento para se familiarizar com as exigências e as carências do setor.

 

Sentiu-se revigorada. A visita àquele certame ultrapassara todas as expectativas. Alcançando o vasto leque de ofertas de consumo das nozes (em cru como aperitivo ou sobremesa, sozinha, combinada com outro alimento ou ainda como ingrediente em muitos pratos, saladas e gelados) a jovem dentista consolidara a sua escolha de tornar-se uma empresária da noz. Determinada a não ser mais uma voz em busca de um financiamento estatal, Anabela tudo fará para ser diferente e assim não dar razão ao premonitório adágio de que, muitas vezes, “são mais as vozes que as nozes”…

José Manuel Alho

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